Jornal A tarde
O Ministério Público Estadual (MPE) quer saber da Câmara Municipal de Salvador as razões que levaram os vereadores aprovarem a criação de 44 cargos comissionados, com salários variando de R$ 4.267,88 e R$ 4.329,52, além de aumentarem o valor do vale-combustível em 45% e o vale-alimentação em 47%. Em ofício encaminhado, ontem à tarde, ao presidente da Casa, vereador Alan Sanches (PMDB), o MP solicita cópia dos atos que criaram os cargos e reajustaram os benefícios e a exposição dos motivos que respaldaram a medida.“Não é porque existe recurso que pode ser utilizada para atender interesses privados dos vereadores”, disse a promotora de justiça Rita Tourinho, contrapondo argumento do presidente Alan Sanches de que os novos cargos estão dentro do percentual que a Constituição estabelece para despesas de pessoal.Coordenadora do Grupo de Atuação Especial de Defesa do Patrimônio Público e da Moralidade Administrativa, Rita Tourinho justificou a instauração do procedimento administrativo, argumentando que toda destinação de recurso público tem que mostrar a razoabilidade e eficiência na sua utilização. “Criação de cargos gera despesas e comprometimento de uma verba que tem natureza pública”, frisou “terão que mostrar qual índice se basearam para reajustar o combustível e a alimentação”.Fantasma – A promotora estranha a necessidade de se aumentar a verba de gabinete, que passou de R$ 35.070,84 para R$ 39.338,72 ao mês, com a finalidade de contratar mais um assessor especial (R$ 4267,88) para cada um dos 41 vereadores. “O regimento Interno da Câmara já garante ao parlamentar ter cerca de 20 assessores. Qual a necessidade de ter mais um assessor nos gabinetes, que já não comportam toda essa gente?”, indaga a promotora, informando que há no MP procedimento instaurado para averiguar denúncia de existência de “assessor fantasma” no gabinete de um vereador.O aumento no número de assessores de gabinete está inserido no Decreto Legislativo (933/09), publicado no dia 11 de março, no qual são desmembradas as Diretorias Administrativa e Financeira, que passaram a contar, cada uma, com um cargo de assessor técnico (R$ 4329,52). Também foi criado o cargo de secretário do Centro Cultural (R$ 1.090,32), função gratificada exercida por funcionário efetivo da Casa Já o vale-combústivel passou de R$ 1.650 para R$ 2.400 e o vale-alimentação de R$ 1.056 para R$ 1.556.Apesar da polêmica que a medida gerou, os líderes da oposição e do governo são favoráveis à contratação dos assessores especiais, cuja indicação caberá a cada um dos vereadores. Líder da minoria, Aladilce Souza (PCdoB) explicou que a medida não fere a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) nem extrapola o orçamento. “Foi fruto de discussão entre os vereadores que entenderam que a Câmara precisava reforçar seu quadro com pessoal qualificado para o trabalho de revisão da Lei Orgânica e do Regimento Interno”. Quanto ao aumento do vale-combustível, disse que a verba é usada pelos assessores, que utilizam o próprio veículo nos deslocamentos necessários.Já o líder do governo, vereador Sandoval Guimarães (PMDB), de quem partiu a sugestão de contratar novos assessores para ajudar na estruturação de projetos, disse que os profissionais atenderão à necessidade de dar eficiência aos processos legislativos. “Não vejo problema se não compromete o orçamento”.
Central pede verba para 1º de Maio a empresas que demitiram
Para bancar o primeiro megashow de comemorações do 1º de Maio sob a atual crise econômica, centrais sindicais pediram recursos para empresas que elas mesmas criticaram duramente, nos últimos meses, por demitir trabalhadores ou por defender propostas que flexibilizam a lei trabalhista.
A reportagem é de Claudia Rolli e Marcio Aith e publicada no jornal Folha de S. Paulo, 29-04-2009.
Embraer, Vale e ao menos três instituições financeiras -Bradesco, Santander e Itaú- são algumas das empresas que, após serem alvos de ataques de líderes sindicais, foram procuradas pelas centrais para comprar cotas de patrocínio e ajudar a custear as festas marcadas para sexta-feira, quando se comemora o Dia do Trabalho.
A Folha apurou que o pedido causou mal-estar entre empresários de peso da indústria e do setor financeiro. Algumas, como Embraer e Sadia, negaram-se a dar o dinheiro em razão de dificuldades com a crise. Outras decidiram manter a ajuda já concedida em anos anteriores com a compra de cotas de patrocínio durante as festas.
"Não é porque uma empresa compra cota de patrocínio que vamos deixar de fazer protesto, manifestação ou greve. Se alguma empresa imagina que está "comprando" a central ao dar patrocínio, está muito enganada", diz Paulo Pereira da Silva, presidente da Força Sindical.
A Sadia, empresa que demitiu 350 trabalhadores em janeiro deste ano, e a Embraer, terceira maior fabricante de aviões comerciais do mundo, que cortou 4.200 funcionários em fevereiro, estão na lista das procuradas, segundo Paulinho, para patrocinar o megaevento de R$ 2,2 milhões que a central fará na praça Campo de Bagatelle (zona norte).
"Em anos anteriores, as duas compraram cotas de patrocínio. Acredito que a Sadia não deu [recursos] por enfrentar dificuldades com a crise. A Embraer no ano passado deu R$ 60 mil [adquiriu cota de patrocínio nesse valor]. Neste ano, nem deu resposta após as confusões [protestos feitos na empresa contra as demissões] que fizemos em sua porta", diz.
Sobre o fato de procurar as empresas que demitiram para custear o evento, Paulinho diz que "uma coisa não tem nada a ver com a outra". Patrocinar o 1º de Maio equivale a um patrocínio como outro qualquer, diz.
A Sadia afirmou que não foi procurada neste ano para apoiar o 1º de Maio. E que, caso tivesse sido, não teria como patrocinar os eventos, "tendo em vista a necessidade de otimização de seus recursos após o advento da crise internacional". No passado, a empresa apoiou as comemorações.
Durante os protestos na Embraer neste ano, ao apoiar as manifestações feitas pelo Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos (ligado à Conlutas), Paulinho diz que chegou a dizer a um dos coordenadores da central: "Zé Maria [José Maria de Almeida, coordenador da Conlutas], essa brincadeira nossa aqui [protesto na Embraer] vai me custar R$ 60 mil [em alusão à cota de patrocínio dada pela empresa à festa da Força em 2008]".
A Embraer afirmou que, por conta das reduções de custos que a empresa teve de fazer "em múltiplas dimensões da companhia e em razão da crise por que passa a indústria, deixou de apoiar, em caráter temporário, uma série de eventos, dentro e fora do Brasil".
Bradesco, Itaú e Santander, três das instituições que apoiam os eventos de algumas centrais, não informam os valores dos patrocínios.
A UGT (União Geral dos Trabalhadores) -central que fará sua megafesta na avenida São João em parceria com a CTB e a Nova Central Sindical ao custo estimado de R$ 1,3 milhão- foi buscar patrocínio nas instituições financeiras. O setor bancário também fez cortes desde 2008 por causa da crise.
"O patrocínio das empresas não retira nossa capacidade de indignação. Não é porque os bancos vão participar, adquirindo cotas de publicidade, que vamos deixar de protestar contra o alto "spread" bancário [a diferença entre a taxa de juros do dinheiro captado pelo banco e a que repassam ao consumidor]", diz Ricardo Patah, presidente da UGT.
CUT e Conlutas afirmaram que seus eventos não terão patrocínio de empresas.